sexta-feira, 23 de março de 2012

A Decisão

A agulha já chegou ao final do disco que continua girando. O barulho, apesar de baixo, é irritante. Ele dormiu ao lado do whisky de novo. Ouvindo o disco do Johnny Cash e, certamente, se lamentando.
Não me dou mais ao trabalho de acordá-lo. Nem mesmo de desligar a vitrola. Ao contrário, deixo ligada na torcida de que queime de uma vez.
Todos os planos que fazia com Susan se mostram inúteis quando chego em casa.
Ele é um cara quebrado, não me deixaria nada senão dores de cabeça. Também não diminuiria em nada minha dor.
Eu não deveria me apegar assim as pessoas. É o que diz Susan. Mas ela não entende.
Eu conheço esse velho desde que nasci.
Cresci vendo este velho maldito ouvindo esses discos do Johnny Cash e Willie Nelson, bebendo whisky barato e reclamando de sua falecida esposa.
Susan desistiu de mim. Disse que eu não sirvo para viver com ela se não tenho colhões, sim, ela usou exatamente este termo, para dar cabo de um velho acabado como aquele.
Foi embora levando a televisão da sala e um cinzeiro de argila. O Rui ficou comigo. É um peixe tranquilo. Não me incomoda.

Mais um vez volto do bar sozinho, andando pelas ruas escuras. Penso em Susan e tudo que vivemos. Penso no velho que certamente estará dormindo sentado quando eu chegar. Estou visivelmente embriagado.
Penso no Rui. Não o alimentei hoje.

Chego até o portão.
Não aguento mais chegar e ve-lo dormindo na cadeira. O disco girando num ruído incessante e a garrafa quase seca.
Pego minha chave e abro o portão.
Entro decidido. Vou por um fim a isso!
Amanhã na reunião do condomínio vou comunicar que contrataremos outro porteiro! Vou demitir o seu Carlos e proibir o consumo de álcool na portaria do prédio!

Afinal, é isso que faz um bom síndico!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O MUNDO DÁ VOLTAS

Realmente a vida nos traz mais surpresas do que podemos esperar.
Em 1964 eu estava apaixonado por Isabel, uma garota lindíssima. Eu era um cara jovem e muito rico. Nunca uma garota como Isabel tinha se interessado por mim. Nós formávamos um casal perfeito. Quase não discutíamos e tal...nos amávamos pra valer.
O porém de nossa relação só tinha um nome: The Beatles.
Isabel era uma beatlemaníaca inveterada. Sua paixão pelos quatro cabeludinhos de Liverpool, especialmente Paul MacCartney, era irritante.
Obviamente, não havia como fugir da genialidade dos quatro filhos da puta! Confesso que não gostei de cara dos primeiros discos da banda, mas depois do Rubber Soul ficou difícil desgostar de alguma coisa deles. Mas enfim...
No começo de 1965 fui convidado por um tio que estava trabalhando em Los Angeles para passear por lá por uns tempos. Resolvi convidar Isabel para ir comigo. Iríamos em janeiro e volteríamos logo após o carnaval.
Saímos do Brasil no dia 10 de janeiro. Passeamos muito, nos divertimos, conhecemos vários lugares. Três dias antes de voltarmos, ficamos sabendo que no final de março os Beatles se apresentariam no Hollywood Bowl.
Isabel implorou para que ficássemos...acabei cedendo. Mesmo ainda não indo muito com a cara dos Beatles, eu já tinha meia dúzia de músicas deles que me agradavam. Acabamos ficando para assisti-los.
No dia do show, foi uma confusão do caralho. Mas acabamos pegando um lugar razoável perto do palco. A gritaria das mulheres, inclusive Isabel, era insuportável. Não deu pra ouvir uma nota sequer do que eles tocavam. Mas confesso ter ficado emocionado por estar presenciando aquilo. Qualquer pessoa em sã consciência sabia que aquilo era um fenômeno mundial.
No fim do show, Isabel me arrastou para os fundos do lugar, para tentar falar com os caras...doce ilusão...acabamos nos perdendo um do outro no meio da confusão. Me afastei um pouco da multidão e dei de cara com alguns caras colocando os instrumentos dos Beatles num carro. De repente os quatro aparecem de uma porta...os quatro Beatles! Todos os caras do carro correram na direção deles para protegê-los, pois um exército de meninas ensandecidas corria na direção deles. Naquele momento, pensei em Isabel. Ela não me perdoaria por deixar passar uma oportunidade daquelas...precisava de uma lembrança para dar pra ela...qual era mesmo o beatle favorito dela? Paul...era o Paul...fui até o carro correndo peguei o baixo Hoffner dele e saí correndo...ninguém se tocou. Enquanto eu corria, olhei pra trás, e pude ver Paul olhar de relance na minha direção ver que seu baixo estava comigo...

No dia seguinte Isabel chegou em casa feliz da vida, dizendo que havia entrado para um fã-clube dos Beatles, que havia conhecido muitas pessoas legais que eram fãs dos Beatles...
Cheguei pra ela dizendo que tinha uma surpresa. Contei tudo que havia acontecido quando nos separamos...que vi os quatro de pertinho e que havia trazido uma lembrança de seu beatle favorito. Quando mostrei o baixo de Paul ela ficou sem reação por alguns segundos e começou a chorar. Veio pra cima de mim com ódio nos olhos...como eu podia ter feito aquilo com Paul, esbravejava ela...se virou e foi embora e eu nunca mais a vi.

Anos e anos se passaram. E eu fui me apaixonando pelos Beatles cada vez mais. Fui entendo cada música, cada personalidade, cada melodia, cada genialidade, cada detalhe. Guardei aquele baixo comigo por toda minha vida. Até que...

Mês passado, fiquei sabendo que na mesma data em que os Beatles se apresentaram no Hollywood Bowl em 1965, Paul faria um show no mesmo Hollywood Bowl em homenagem a John e George. Meus olhos se encheram de lágrimas ao ler aquilo no jornal. Larguei tudo no escritório e corri para comprar uma passagem para Los Angeles e comprei meu ingresso pela internet.

O show foi maravilhoso, emocionante...indescritível! E eu sempre com o estojo com o baixo de Paul comigo.
No fim do show, um flash back passou pela minha mente. Enquanto a legião de fãs corria para um lado, eu, assim como havia feito por acidente em 1965, andei na direção contrária. Vi um caminhão onde instrumentos e amplificadores eram guardados. Da mesma porta, Paul MacCartney saiu, rodeado por alguns agentes. Com uma agilidade que eu não sabia que possuía, desviei dos seguranças e me coloquei na frente de Paul. Tomado pela emoção, não consegui pronunciar uma palavra sequer. Simplesmente abri o estojo exibindo o baixo para Paul e entregando a ele em seguida. Os olhos de Paul brilharam como se ele tivesse se lembrado da cena em 1965. E ele sorriu para mim mostrando que havia entendido tudo. Todos em volta de Paul se mostravam perdidos. E a multidão, como em 1965, se aproximava. Mas uma pessoa, uma mulher, que estava ao lado de Paul estava com os olhos cheios de lágrimas. Reconheci aqueles olhos. Era Isabel. Ela se tornou menager de Paul. Desde 1965, ela não voltou ao Brasil, tendo sua vida toda dedicada aos Beatles e a Paul MacCartney.