A agulha já chegou ao final do disco que continua girando. O barulho, apesar de baixo, é irritante. Ele dormiu ao lado do whisky de novo. Ouvindo o disco do Johnny Cash e, certamente, se lamentando.
Não me dou mais ao trabalho de acordá-lo. Nem mesmo de desligar a vitrola. Ao contrário, deixo ligada na torcida de que queime de uma vez.
Todos os planos que fazia com Susan se mostram inúteis quando chego em casa.
Ele é um cara quebrado, não me deixaria nada senão dores de cabeça. Também não diminuiria em nada minha dor.
Eu não deveria me apegar assim as pessoas. É o que diz Susan. Mas ela não entende.
Eu conheço esse velho desde que nasci.
Cresci vendo este velho maldito ouvindo esses discos do Johnny Cash e Willie Nelson, bebendo whisky barato e reclamando de sua falecida esposa.
Susan desistiu de mim. Disse que eu não sirvo para viver com ela se não tenho colhões, sim, ela usou exatamente este termo, para dar cabo de um velho acabado como aquele.
Foi embora levando a televisão da sala e um cinzeiro de argila. O Rui ficou comigo. É um peixe tranquilo. Não me incomoda.
Mais um vez volto do bar sozinho, andando pelas ruas escuras. Penso em Susan e tudo que vivemos. Penso no velho que certamente estará dormindo sentado quando eu chegar. Estou visivelmente embriagado.
Penso no Rui. Não o alimentei hoje.
Chego até o portão.
Não aguento mais chegar e ve-lo dormindo na cadeira. O disco girando num ruído incessante e a garrafa quase seca.
Pego minha chave e abro o portão.
Entro decidido. Vou por um fim a isso!
Amanhã na reunião do condomínio vou comunicar que contrataremos outro porteiro! Vou demitir o seu Carlos e proibir o consumo de álcool na portaria do prédio!
Afinal, é isso que faz um bom síndico!